21.10.09

Como vai você?

Sobre a morte...
Eu nunca tinha experimentado tal sensação, e hoje posso dizer que ainda caminho neste assunto.
Sinceramente quando aconteceu em minha vida a perda de meu pai, uma figura muito ativa na nossa família, ele era tudo para nós; Eu simplesmente não chorei.
Cheguei a sentar no banco do velório e ainda assim não havia assimilado a situação. Fiquei estática olhando todo mundo triste, não entendendo nada. Jamais queria acreditar que meu pai, um sujeito forte, filho de italianos, lutador, um oficial da marinha, bem apessoado, com seus olhos verdes poderosos e um bigode austero; poderia estar deitado em um caixão no velório. Não meu pai.
Nem tenho como falar dele, mas vou tentar, apenas pra deixar claro que a morte jamais poderia tocá-lo.
Nasceu e viveu até os 16 anos em Batatais, cidade do interior ao norte do estado de São Paulo. Com altitude de 840 metros do nível do mar. Fresca, com odores de eucalipto, muito cultivado na região. Lá fez o primário, e cansou da vida amena. Tinha quatro irmãs lindas. Filho de pai severo. Mãe autêntica e maravilhosa, dona de olhos claros jamais vistos, Cesira Pantanin.
Meu pai viu uma oportunidade no chamado de alistamento da marinha do Brasil, foi morar no Rio de Janeiro – RJ.

Com apenas um relógio de bolso e a coragem, começou a servir seu país. Lá encontrou todo tipo de gente. Mas foi muito discriminado, pois era considerado um semi-analfabeto, mediante todos que possuíam uma cultura vasta e educação exemplar. Não desistiu e ele estudou sozinho todos os livros da biblioteca. Não satisfeito se tornou chefe de praça de máquinas do navio. Chegou à oficial da marinha e então partiu para a marinha mercante.
Sempre diante dos desafios, mostrou coragem e discernimento, apontando como opção sentar e descascar uma laranja quando o navio estivesse afundando...
Esta é a melhor saída. Você senta e consegue colocar seu foco para fora do problema e consegue resolve-lo.
Estas e outras foram sabias palavras de meu pai.
Quando aposentado, fomos morar em Batatais, em uma casa muito boa, com piscinas e um grande quintal.
Ele sentava e podia falar. Podia falar das baleias, e tudo mais que havia aprendido na sua jornada.
Acompanhado de um bom vinho, e muita filosofia, meu pai, meu mestre e guru, descobriu um câncer em seu corpo.
Jamais se queixou um segundo de dor. E com isso ficou reduzido a 30 kilos. Assustador e muito dolorido ver um homem de porte atlético, sumir assim. Mas sua consciência permaneceu firme até o ultimo segundo de sua vida. Morreu narrando como era o túnel da morte para mim.
Eu suguei o máximo que pude como se fosse um fôlego, para conseguir aceitar sua ausência.
Mas meu ar está se acabando, e eu preciso de mais. Preciso de sua sabedoria, seus contos maravilhosos de Pedro Malazarte, do Bocage e muitos outros.
Ele me fez 3 pedidos antes de partir, e um deles é que eu escreva um livro. Mas não sei se é possível. Ainda dói muito sua perda.
Falei de meu pai. Agora acho que posso voltar ao assunto inicial: A dor da morte.
Contudo, eu só consegui chorar a grande partida do meu pai, com um mês de sua ausência. Mas chorei muito, tanto que passava dias chorando seguidamente.
A dor foi aumentando e pra piorar tinha na TV o programa do Roberto Carlos (recorda sempre nossa história) então chorava mais e mais.
Eu também perdi minha cunhada, e não conseguia dizer aos meus parentes como proceder, pois nem mesmo sabia como lidar com os meus sentimentos da primeira perda.
Hoje dia 20 de outubro de 2009, faz três anos que eu perdi meu pai. Posso dizer que ainda sofro, mas estou conseguindo seguir de uma forma menos dolorida.
Quando principalmente eu vejo suas fotos, consigo entender a mensagem, que ele esteve aqui, e eu posso lembrar. Então não há morte. Só um afastamento físico.
Eu estou conseguindo viver. Triste às vezes. Mas sei que em um futuro próximo, vou lembrar-me dele com muito mais alegria, com conforto.
Também poderei aproveitar suas palavras derradeiras sobre as coisas da vida.
Eu agradeço e homenageio meu Grande Pai José Maria Guideti. Em sua memória.

Obrigada por tudo!

Luciana Pantanin

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