7.11.09

“Não me basta crer todos os dias que vou começar a escrever. Talvez o castigo de uma pessoa que quer e nunca redige um livro seja este. De ser assim como sou. Uma mulher de muitas palavras, que aparentemente fala demais. Deve ser isto. As palavras me saem pelos cotovelos...”
Cansei de escrever em rascunhos. Começando histórias inacabadas. São duas e cinqüenta e três da manhã e eu estava sonhando, juro!
Mas ouvi um barulho e perdi o sono. Sei que prometi ao meu pai escrever um livro. Posso sentir o cheiro da caneta. É muito louco isso! Mas sobre o que escrever?
A dúvida não é pelo o que eu não sei e sim porque são muitas coisas que mal caberiam em um único livro.
O dia-a-dia me consome. Toma meu tempo. Acaba com minha criatividade. Manutenção é a palavra mais idiota que eu já li.
Coisas rotineiras como tomar banho, comer, trabalhar, apagar a luz tomam meu tempo criativo. Minha vida é viver, sonhar, criar e recriar. Queria ter tempo só para mim. Para as minhas loucuras. Amar meu ego, analisar cada detalhe e curtir meus próprios pedaços, minhas mutações.
Acho que todo mundo procura um jeito, um minuto para isso. Mas a mim não basta. Preciso de horas e dias e confesso que sou complexa. Risos.
Ouvir meu silêncio, sentir meu poder. Isso é a mais pura riqueza. Que nunca se consome e só multiplica. Até que enjoe, mas acho difícil, pois neste caso somos nossos maiores fãs.
Posso ouvir meus pensamentos por horas a fio, sem cansar. Tenho inúmeros e sobre coisas materiais e surreais. Acho que ninguém vai ouvir nunca. Não é narcisismo e nem soberba. É íntimo. E Absoluto.
Capítulo zero

Quando eu era criança e tive a primeira sensação que me recordo ao caminhar na areia. Eu não só tirava dela conclusões normais, podia sentir aguçadamente meus passos, a textura e ouvir meu peso sobre ela.
Era um ruído bem mais alto. A areia entrava pelos meus dedos dos pés com mais intensidade que o normal. Eu via os grãos brilharem, chegava a ofuscar meus pequenos olhos.
O vento soprava nos meus fios cacheados e brancos como cabelos de anjo, atrapalhando a vista que eu tinha de meu pai correndo com sua cadela collie na praia do Grumari RJ.
O sol nem tinha saído, pois ele gostava de ir à praia muito cedo e voltar mais cedo ainda pra casa. A espuma do mar era branca e espessa, quase macia. Quando eu a tocava, sumia em meus dedos. Isto foi à primeira sensação de miragem ou deparo com o surreal. Quatro anos eu acho que tinha.
Por que o verde sempre pareceu muito mais intenso para mim e possuía cheiro?
Nunca tive dúvidas normais. E muito menos hoje!
Quando eu toco em algo posso sentir a respiração, pulsação ou vida. Meu cérebro viaja nas estruturas das coisas ao entendimento 360 graus em segundos.
Isso me enaltece, mas tira todo padrão social das minhas mãos. Quando olho pra quem quer que seja, confusão!
Eu posso desenhar a íris dos olhos de alguém enquanto dinamizo todo seu funcionamento corporal e atinjo a alma, rapidamente. As vozes somem e eu ouço a respiração, batimentos cardíacos, transportando minha atenção aos seus pensamentos e consigo ver por outro ângulo, revirando a cena. Ah! Deixa pra lá, talvez não desejassem nunca conversar comigo. Risos.
Outro dia eu descobri o por do sol. Que cores lindas se misturavam com o azul, eu não posso definir em salmão, abóbora e lilás. Tudo dégradé cheirando a tinta óleo no céu.
E o som do violino que arranha meu ouvido... Tudo tão intenso. Tão meu e tão íntimo.
* Meu livro Íntimo Absoluto Luciana Pantanin


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